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“Worldwide, hydropower is pitched as a renewable and green energy source. But the production of hydroelectricity hides a much darker conflict—one that has long been overshadowed by its environmentally-friendly qualities. In her project Dead Water, Marilene Ribeiro sheds light on the severe impact that the construction of dams has on local inhabitants. Despite the destruction that hydropower plants cause to the lives of nearby residents, the surrounding wildlife, and traditional riverside cultures, the expansion of the hydropower industry continues to reek havoc on communities across the globe. 

 

The photographer’s case study is her native Brazil. In a bid to create a counter-narrative to the mass media’s treatment of the subject—made up of portrayals that typically overlook the voices of ecologists, anthropologists, social activists and people personally hit directly by the industry—her project focuses on giving voice to the affected communities. Dead Water presents the material impact of hydropower through a hybrid point of view: both that of the photographer and the subjects of this story. 

‘Each sitter was also asked to direct his/her own photo shoot, making the changes she/he wanted in order to best represent himself/herself, her/his history and feelings before the Other. I want the sitters’ voices to come through in the making of work, not simply as the observed within the documentary process.’ In addition to bearing witness to the changing landscape that surrounds the people she photographs, she invites them to express how they feel in response to these transformations that they have little control over: their thoughts, dreams, memories that speak to their intimate relationship to the place they belong to. 

 

Using photography as an agent for change, Ribeiro positions her images within a highly active and engaged practice that includes writing a PhD on the subject and taking part in the collective Voices of Latin Amercia and Agnitio, a project that seeks to empower communities through photography. She is currently working on an extensive book project (which has been shortlisted for the Luma Rencontres Dummy Book Award at this year’s Rencontres d’Arles) that weaves the portraits together with in-depth research, unpacking many dimensions of this urgent issue. In doing so, she builds a multi-layered story on the development of Hydroelectricity, in which the overlooked become protagonists of this troubling narrative.” 

SOPHIE WRIGHT (August 2019) 

LensCulture’s editor.

The article can be accessed here.

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JEAN WAINWRIGHT 

Art historian, critic and curator. 

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“Central to Marilene’s project [Dead Water] has been her working method of collaborating with her subjects. Marilene has gone on to use concepts of documentary storytelling that are both engaging and innovative. She has place huge value on her subject’s voices and on what they want and need to say, she has encouraged them to show, through the photographic project, how they feel, how they have experienced life and ultimately what the damming of their rivers has meant to them.

The work is not only informative it is visually stunning, her subjects shine proudly out of the images and the interviews, they set their case up powerfully and with an exquisite finesse that cannot fail to impress on the audience the tragedy of their situation. Dead Water expands and adds to the contemporary field of documentary photography practices through the nature of the collaboration. The work can be described as multi dimensional and adds layers of meaning both through the method Marilene employs and from the combining of material (texts, photographs, video, vernacular material and drawings).

The project is both highly respectful and intelligent, it is the cleverness of the three dimensional feel to this work that brings Marilene’s subjects and their experiences to life in a way that is undoubtedly innovative in the field of photography. She has used text and image. Testimonies from her subjects, drawings and notes, advertisements from the organisations who are perpetrating the crimes, traces of past lives in happier times, vernacular memories and then her own slowly worked out portraits made collaboratively with her subjects – all these different perspectives melded together in one book, we, the audience cannot fail to be transformed.

These are troubling times, and Marilene is exposing tales about things that remain hidden from our view, stories that corporations and governments like to conceal. I feel passionate about this work, it moves me, it informs me and it has educated me – I sincerely believe that this is how Dead Water will work in the world – to inform, to educate and to inspire change.”

 

ANNA FOX (March 2018)

Documentary photographer shortlisted for the Deutsche Börse

Photography Foundation Prize. 

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“O projeto Dead Water de Marilene Ribeiro estabelece um elo entre a potência da imagem em acionar fabulações e memórias e o enfrentamento de importantes questões ambientais vividas diretamente por pessoas que tiveram suas vidas alteradas graças às problemáticas implantações de usinas hidroelétricas no Brasil. 

O livro é uma longa pesquisa de natureza transdisciplinar envolvendo diversas áreas do conhecimento – orquestrada pelo campo da fotografia – que durou cerca de quatro anos incluindo inúmeras viagens nas regiões atingidas. Com isso Dead Water traz a fotografia como mediação de uma série de fabulações que acionam os imaginários e as memórias das populações atingidas em potentes processos colaborativos.

As imagens geradas nesse processo se colocam nas tramas da fotografia contemporânea nos revelando retratos densos e contundentes, repletos de histórias e memórias. Junto com as imagens Ribeiro também colhe depoimentos e articula textos que sinalizam, entre outros, as perdas das populações atingidas e o grande equívoco de pensarmos as usinas hidroelétricas como fontes limpas de energia limpa. 

Com isso, Dead Water torna-se um livro que propõe diálogos entre a produção artística contemporânea em fotografia, a tradição dos retratos, a voz e visão dos atingidos assim como questões ambientais locais-globais. Tudo isso envolto em uma forma política-poética que se articula em torno da alteridade, questão sensível nesses tempos tão confusos que agora experimentamos com inúmeras disputas narrativas que tentam despistar os imensos problemas ambientais que o crescimento desordenado nos impõe.” 

 

EDUARDO DE JESUS (outubro 2019) 

Curador na área do audiovisual, arte contemporânea e tecnologia, com atuação na Mostra Fiat Brasil (Brasil, 2006), Festival Transitio-MX (México, 2008), Videobrasil (Brasil, 2014) e Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte - FIFBH (Brasil, 2017), e professor titular do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. 

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“À primeira vista, as imagens produzidas por Marilene Ribeiro e seus retratados parecem recorrer a um esquema de representação muito próximo ao das fotografias do século XIX, notadamente aquelas que tinham como função dar a ver e, no mesmo gesto, catalogar o que então se denominava "tipos humanos": a pose, a frontalidade, o aspecto descritivo, a presença do "outro".

 

Mas, ao contrário dessa iconografia oitocentista, em que os sujeitos são como que constrangidos a terem sua imagem registrada, transformados em objetos do olhar de um público ávido por exotismos ou do exame das ciências humanas emergentes no mesmo período, nas fotografias de Água Morta, os atingidos pela construção das hidrelétricas assumem um papel ativo, o que percebemos em seus corpos, suas atitudes, seus gestos. Se, na fotografia do século XIX, o outro está, via de regra, submetido a mecanismos sociais de controle e dominação econômica e simbólica, as pessoas fotografadas em Água Morta entram na imagem com o desejo de expressar suas angústias e sua raiva, decididas a registrar algo de sua história e de seu território, do qual foram ou serão removidas contra a sua vontade. 

Quando assume de forma incisiva o componente colaborativo em seu trabalho, criando a metodologia e o dispositivo que abrem o processo de produção das imagens à participação efetiva dos retratados, Marilene Ribeiro subverte as relações de poder que atravessavam aquela cena e, mesmo que de forma mais sutil, continuaram a marcar o encontro entre fotógrafos e fotografados dentro da tradição do documentário ao longo do século XX.  

A incorporação dos testemunhos e das fotografias de família, além de outros materiais como desenhos, mapas, folhetos e anúncios publicitários, reforça, por sua vez, o caráter polifônico do projeto. Junto aos potentes retratos que resultaram das trocas entre os atingidos e a fotógrafa, investe-se na montagem como forma de conhecimento, aprofundando a nossa compreensão do verdadeiro impacto desses grandes empreendimentos e dos custos materiais e imateriais que impõem ao meio ambiente e à vida de tantos, impossíveis de serem contabilizados.” 

ANNA KARINA BARTOLOMEU  (julho 2019)

Pesquisadora especialista em documentário,

curadora e professora titular do Departamento de Fotografia e Cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. 

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"Custos cria um ensaio documental a partir de  três esquemas hidrelétricos que acontecem em diferentes épocas no Brasil (passado – a barragem de Sobradinho, presente – a barragem de Belo Monte e o futuro – o complexo da barragem de Garambi-Panambi). O filme navega com a câmera pelas águas do rio e das barragens enquanto ouvimos a voz dos moradores atingidos pelas obras. Eles cantam e  falam de suas memórias afetivas, criando um inventário daquilo que desapareceu com as inundações: os peixes, os bichos que habitavam suas margens, assim como as memórias do espaço, da paisagem, de suas casas, de suas atividades cotidianas  nas cidades inundadas. Pessoas sentem a dor por si e pelo rio,  tratando-o como uma entidade viva, um pai, que está doente e precisa de ajuda."

BERNARDO VAZ (dezembro 2020)

Curador e produtor do Cine Beiras, Produção Audiovisual do Rio São Francisco.

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“Recentemente estive conversando com Marilene Ribeiro, fotógrafa brasileira que leva ao mundo seu projeto socioambiental realizado em cenários brasileiros de rios represados por barragens para a criação de hidroelétricas. Ela articula suas preocupações destacando a necessidade de empatia para com os que sofrem injustiças sociais e nas suas ações é possível notar um reflexo do primeiro momento do modernismo brasileiro. Aqui aparece na coautoria dos registros fotográficos que são realizados pelos entrevistados a partir da provocação que a fotógrafa faz a eles, e no uso da cor na fotografia como um elemento de aproximação da realidade. Segundo a artista, questões de identidade cultural são construídas por essas aproximações colaborativas, pelas apropriações e interferências mútuas, que, por sua vez, são refletidas entre as linguagens artísticas das quais ela e seus colaboradores se apropriam para expressão das denúncias que reportam através de imagens em fotografias, vídeos, textos e desenhos - fluindo numa grande instalação que tem se desdobrado em outras poéticas fotográficas, nos prêmios que dão visibilidade ao Projeto e o colocam dentro do debate internacional a partir do debate brasileiro, consumando outras premissas do nosso modernismo que estimulou o olhar para dentro de seu próprio país e suas questões urgentes. Lembramos que o movimento teve como símbolo um Apaboru pintado por Tarsila do Amaral. Com uma sugestão de melancolia, a figura sentada na terra, plantada uma perspectiva que projeta na sua pose reflexiva a cabeça para longe do espectador, sob um céu solar na companhia de uma planta, um único cacto que representa o sertão, o deserto, a escassez, a solidão.

É possível ver que o hibridismo na obra da fotógrafa se manifesta organicamente na sua poética visual do verso de um avesso social em busca das narrativas humanas e suas histórias pessoais de vida, atravessadas pelo capitalismo nas regiões que sofrem desapropriação material e imaterial. No entanto, cedendo espaço para as expressões próprias (e não só apropriadas) das comunidades ribeirinhas e mostrando a eles que por meio das imagens que produzem é possível representar seu mundo, revelar seus sentimentos, nomear suas perdas, reconstruir suas memórias, reivindicar seus direitos, Marilene Ribeiro realiza seu verso, a partir da realidade, como uma excelente modernista, porém no avesso da fotografia modernista que, em busca da forma pura e com a ausência de cor, deixou de lado os temas e os conteúdos sociais apropriados pela pintura e poesia. Seu compromisso em ver e fazer ver, apontar o sofrimento em meio a tanta beleza - brasileiros sofridos num cenário de paisagens incríveis - continua a nos lembrar esse lugar da fotografia documental enquanto meio de oxigenar pensamentos e reflexões numa resistência política e poética quanto ao "avesso do avesso do avesso do avesso", como diria Caetano Veloso ao se encontrar pela primeira vez com a urbanidade de São Paulo."

 

ADRIANA VIANNA  (abril 2021)

Especialista em Filosofia e Arte pela PUC-Rio.

Colaboradora da revista brasileira Resumo Fotográfico, onde escreve regularmente sobre filosofia da imagem.

 

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